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TDAH, autismo e autodiagnóstico: o que as redes sociais podem - e não podem - dizer sobre você

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura


Identificar-se com um vídeo pode abrir uma pergunta importante. A resposta, porém, exige história de vida, contexto e avaliação profissional.


“Eu esqueço tudo, então devo ter TDAH.”

“Não gosto de mudanças, será que sou autista?”

“Esse vídeo parece que foi feito para mim.”


Em poucos minutos nas redes sociais, é possível encontrar conteúdos que descrevem desatenção, dificuldade de organização, sensibilidade a sons, exaustão social, procrastinação e outros comportamentos que fazem muita gente se reconhecer imediatamente.


Esse movimento tem um lado muito positivo. Ele amplia o acesso à informação, reduz estigmas e faz com que pessoas que passaram anos se sentindo inadequadas percebam que podem buscar ajuda.


O problema começa quando a identificação vira certeza antes que exista uma investigação cuidadosa.


Para Everson Taco, psicólogo com foco em Avaliação Psicológica e atuação em avaliação neuropsicológica e Terapia Cognitivo-Comportamental, reconhecer-se em um conteúdo pode ser um ponto de partida válido, mas não deve ser confundido com uma conclusão.


“Identificar-se com um conteúdo é o começo de uma reflexão válida e importante, mas não é, e nunca será, um diagnóstico.”

O que um vídeo consegue mostrar, e o que ele deixa de fora


As redes sociais favorecem mensagens curtas, diretas e fáceis de compartilhar. Isso ajuda a popularizar temas importantes, mas também pode simplificar demais experiências que, na vida real, são bem mais complexas.


Esquecer compromissos, perder o foco em uma reunião cansativa, adiar tarefas ou preferir rotinas previsíveis são experiências humanas relativamente comuns. Sozinhas, elas não definem TDAH, autismo ou qualquer outro transtorno.


“Todo mundo tem dias mais desorganizados ou se distrai em determinadas situações”, explica Everson.

“O sinal de atenção aparece quando isso se repete de forma consistente, em diferentes áreas da vida, e passa a gerar prejuízo real.”


É essa diferença que uma postagem dificilmente consegue avaliar.


Para investigar TDAH, por exemplo, profissionais consideram não apenas sintomas, mas a história desde a infância, a presença das dificuldades em mais de um contexto e o impacto no funcionamento escolar, profissional, social ou familiar.


A orientação clínica do CDC sobre TDAH também destaca esses elementos.


“Acho que tenho TDAH”: por que a resposta pode ser mais complexa


Muitas pessoas chegam ao consultório com uma suspeita específica. Elas pesquisaram, assistiram a relatos semelhantes aos seus e passaram a enxergar o TDAH como explicação para dificuldades de concentração, esquecimentos, procrastinação ou desorganização.


A hipótese pode fazer sentido, inclusive em adultos que nunca tiveram acesso a uma avaliação na infância. Mas ela não é a única possibilidade.


Ansiedade, humor deprimido, privação de sono, sobrecarga de rotina, uso de álcool ou outras substâncias, dificuldades de aprendizagem e questões de saúde física podem afetar atenção, memória, disposição e organização.


A pergunta mais útil, portanto, não é apenas “tenho TDAH?”, mas: o que está acontecendo comigo, há quanto tempo e de que forma isso tem afetado minha vida?

“Uma das funções da avaliação é separar essas camadas: entender o que é sintoma central, o que é consequência e o que faz parte de uma fase ou de um contexto”, afirma Everson.

Esse cuidado evita dois problemas: ignorar uma dificuldade que merece atenção e, ao mesmo tempo, adotar um rótulo que não explica de fato o que a pessoa está vivendo.


E quando a dúvida envolve autismo?


Com o autismo, algo parecido acontece. Adultos podem procurar avaliação após se reconhecerem em conteúdos sobre dificuldade em interações sociais, sensibilidade a sons, luzes ou texturas, necessidade de previsibilidade e sensação recorrente de não pertencimento.


Essas vivências merecem acolhimento. Porém, frases como “sempre me senti diferente” ou “nunca me encaixei nos grupos” não são suficientes, isoladamente, para indicar TEA.


“Elas são informações importantes para a entrevista clínica, mas podem estar associadas a muitas outras experiências, como timidez, ansiedade social, rejeições anteriores, alta sensibilidade ou uma trajetória de vida particular”, observa o psicólogo.

A investigação de autismo considera o desenvolvimento da pessoa, suas características ao longo do tempo e observações profissionais.


Não existe um exame de sangue ou um teste único que resolva essa pergunta. Segundo o CDC, o diagnóstico envolve múltiplas etapas e fontes de informação, incluindo a história do desenvolvimento e a observação do comportamento.


O risco de transformar toda característica em transtorno


A circulação de informações pode gerar outro efeito: a patologização de características humanas comuns.


Nem toda timidez é ansiedade social. Nem toda preferência por rotina indica autismo. Nem toda dificuldade em terminar tarefas é TDAH.


Quando qualquer traço passa a ser lido como sintoma, a pessoa pode começar a se observar com medo, como se cada detalhe do próprio comportamento precisasse provar algo.


Everson defende uma abordagem mais cuidadosa: “A avaliação ajuda a diferenciar traço de transtorno. O que importa não é encaixar alguém em uma lista, mas compreender o funcionamento daquela pessoa, sua história, seus pontos fortes e as dificuldades que realmente exigem cuidado.”


Essa visão também evita que o diagnóstico, quando existente, seja tratado como definição completa da identidade de alguém.


Um diagnóstico pode explicar parte de uma experiência, orientar estratégias e facilitar o acesso ao cuidado. Ele não resume a pessoa.


Teste online pode servir para alguma coisa?


Questionários e testes rápidos podem ajudar alguém a organizar dúvidas e perceber que vale a pena conversar com um profissional.


O problema é tratá-los como laudo.

Um resultado elevado em um quiz de internet não considera histórico de vida, contexto, outras condições de saúde, observações clínicas ou a qualidade científica do instrumento.


Ele tampouco consegue distinguir se uma dificuldade é persistente ou se está ligada a uma fase de estresse, exaustão ou mudança na rotina.


Na avaliação psicológica, os instrumentos usados profissionalmente precisam seguir critérios técnicos.


No Brasil, o Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos, do Conselho Federal de Psicologia, informa quais testes têm parecer favorável para uso profissional.


“Um teste isolado devolve um número. O psicólogo observa como a pessoa raciocina, lida com frustração, reage ao erro, se comunica e organiza uma tarefa. Esses dados precisam ser analisados junto com a entrevista e a história de vida”, diz Everson.

IA também não substitui avaliação

Ferramentas de inteligência artificial já são usadas por muitas pessoas para explicar sintomas, resumir informações e sugerir possibilidades. Elas podem ser úteis para entender termos técnicos e preparar perguntas para uma consulta.


Mas existe uma fronteira importante: IA não conhece a trajetória da pessoa, não acompanha seu desenvolvimento, não observa seu comportamento e não aplica instrumentos validados dentro de um processo profissional.


Usar tecnologia para se informar pode ser útil. Usá-la para decretar um diagnóstico pode aumentar ansiedade, reforçar vieses e levar a conclusões precipitadas.


O que fazer quando um conteúdo parece “explicar tudo”?

Se um vídeo ou relato despertou uma identificação forte, vale transformar isso em observação, não em sentença.


Algumas perguntas podem ajudar:

  • Essa dificuldade acontece há muito tempo ou surgiu em uma fase específica?

  • Ela aparece em mais de uma área da vida?

  • Existe prejuízo concreto nos estudos, trabalho, relações ou rotina?

  • Há fatores como sono ruim, ansiedade, sobrecarga, luto, uso de substâncias ou mudanças recentes envolvidos?

  • Em vez de procurar confirmação, estou disposto a investigar todas as possibilidades?


Buscar avaliação não significa que alguém “tem algo errado”. Significa querer compreender com mais precisão o próprio funcionamento e encontrar caminhos mais adequados para lidar com o que está causando sofrimento ou prejuízo.


Como resume Everson Taco:


“Investigar essas dificuldades é um ato de cuidado consigo mesmo. Mesmo quando a resposta é diferente da que a pessoa imaginava, ela sai com informações mais confiáveis e estratégias mais úteis para a própria vida.”

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação psicológica, neuropsicológica, médica ou outro acompanhamento individualizado quando necessário.


Fontes consultadas


Serviço:

Everson Taco Psicólogo | CRP 06/143304

Endereço: Av. Argentina, 133 - Jardim América, Paulínia - SP, 13140-705

Telefone: (19) 99757-6476



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