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Por que parece que todo vídeo sobre TDAH descreve você?

há 24 horas
5 min de leitura

Esquecimento, procrastinação e distração podem fazer parte de experiências diferentes. O psicólogo Everson Taco explica por que reconhecer-se em uma postagem exige uma investigação que vai além da identificação.


Um vídeo descreve alguém que adia tarefas até o último momento. Outro fala sobre perder objetos, esquecer compromissos e começar uma atividade sem terminar a anterior.


Você se reconhece no primeiro, salva o segundo e chega ao terceiro com a impressão de que encontrou uma explicação para a própria vida.



Essa identificação merece atenção, sobretudo quando ajuda a nomear dificuldades que já causavam sofrimento.


A questão é o que se conclui a partir dela: reconhecer um comportamento em si mesmo ainda deixa em aberto sua origem, sua frequência e o impacto que ele tem na rotina.


Na entrevista ao Café Conteúdo, o psicólogo Everson Taco respondeu a uma pergunta que ajuda a entender essa experiência:


uma pessoa pode se identificar com praticamente todos os sintomas apresentados em um vídeo e ainda assim não ter TDAH? A resposta é sim.


Por que os sintomas de TDAH parecem tão familiares?

Esquecer o que pretendia fazer ao entrar em um cômodo, perder o fio de uma conversa ou adiar uma tarefa desagradável são situações nas quais muita gente consegue se reconhecer.


Quando aparecem em uma lista curta, sem informações sobre intensidade e contexto, essas descrições permitem que experiências bastante diferentes pareçam equivalentes.


“Sintomas como desatenção, esquecimento, procrastinação ou inquietação não são exclusivos do TDAH”, explica Everson.


Ele relaciona essas manifestações também a ansiedade, depressão, estresse crônico, privação de sono e períodos de sobrecarga.


A orientação do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, o NIMH, confirma que diferentes condições podem produzir sintomas semelhantes e precisam ser consideradas na investigação.


Isso inclui a possibilidade de coexistirem com o TDAH, o que exige cuidado para interpretar cada caso.


Por isso, duas pessoas podem se reconhecer na frase “tenho dificuldade para me concentrar” sem que essa dificuldade tenha a mesma explicação.


O vídeo apresenta uma descrição; a avaliação precisa investigar como ela se manifesta naquela pessoa.


Onde o viés de confirmação entra nessa história?


Existe uma diferença entre reconhecer uma experiência e procurar apenas aquilo que confirma uma suspeita.


É nesse segundo movimento que o viés de confirmação pode entrar.

O Dicionário de Psicologia da Associação Americana de Psicologia, a APA, define esse viés como a tendência a privilegiar evidências que sustentam expectativas prévias, enquanto informações contrárias são desconsideradas ou deixam de ser procuradas.


Imagine alguém que passou a suspeitar de TDAH depois de assistir a um relato. Ao encontrar outro vídeo sobre atrasos, lembra imediatamente das vezes em que perdeu o horário.


Já as informações sobre início dos sintomas, persistência e outras possíveis explicações recebem menos atenção. A hipótese vai ganhando força sem ter sido examinada com o mesmo cuidado de todos os lados.


Reconhecer-se em uma postagem, portanto, não significa automaticamente estar sob efeito desse viés.


A identificação pode ser pertinente e levar a uma avaliação importante. O cuidado é manter espaço para perguntas e para resultados diferentes daquele que parecia mais provável no início.


Uma investigação precisa poder confirmar, descartar ou ajustar a suspeita. Se apenas uma resposta for considerada aceitável, fica mais difícil compreender o que realmente está acontecendo.


O que uma lista de sintomas deixa de fora?


A quantidade de itens com os quais alguém se identifica é apenas uma parte da investigação.


Também importa saber desde quando as dificuldades existem, com que frequência aparecem, em quais situações se manifestam e que prejuízos provocam.


De acordo com as informações do NIMH sobre TDAH em adultos, o diagnóstico considera um padrão persistente, com sintomas presentes desde a infância, antes dos 12 anos, e comprometimento em diferentes contextos.


O reconhecimento do transtorno pode acontecer na vida adulta, mesmo quando suas manifestações não foram identificadas anteriormente.


Isso ajuda a entender por que uma sequência de vídeos, ainda que pareça muito precisa, não consegue responder sozinha à dúvida. Ela não reconstrói o desenvolvimento da pessoa, não examina outras condições e não verifica a relação entre os relatos e seu funcionamento cotidiano.


As diretrizes clínicas do NICE para diagnóstico de TDAH orientam uma avaliação clínica e psicossocial, com história do desenvolvimento e informações de diferentes contextos. Também estabelecem que o diagnóstico não deve se apoiar exclusivamente em escalas de sintomas ou observações isoladas.


E o uso de telas, pode explicar a desatenção?


Na entrevista, Everson também chama atenção para o uso indiscriminado de telas, especialmente por crianças e adolescentes. Esse ponto exige uma distinção: uma associação entre uso de mídias digitais e sintomas não comprova, por si só, que as telas causem TDAH.


Um estudo publicado no JAMA em 2018 acompanhou adolescentes por cerca de dois anos e encontrou uma associação modesta entre uso frequente de mídias digitais e manifestações posteriores de desatenção e hiperatividade ou impulsividade.


Os próprios autores destacaram que o desenho da pesquisa não permitia estabelecer uma relação causal. O estudo analisou relatos de sintomas, e não a confirmação de novos diagnósticos.


Ao investigar uma queixa de atenção, faz sentido conversar sobre hábitos digitais e sobre o conjunto da rotina. Concluir antecipadamente que a dificuldade vem apenas do celular pode encerrar a investigação cedo demais, assim como atribuí-la imediatamente ao TDAH.


Como levar essa identificação para uma conversa profissional?


Se um conteúdo chamou sua atenção, você pode usá-lo para organizar dúvidas. Em vez de chegar apenas com uma lista de características, procure lembrar de situações concretas: o que aconteceu, quando começou, com que frequência se repete e como interfere no trabalho, nos estudos ou nas relações.


Também vale mencionar períodos em que a dificuldade melhora ou piora e mudanças recentes no sono, na saúde ou nas responsabilidades. Essas informações ajudam a transformar uma impressão geral em um relato mais claro, sem exigir que você descubra a causa antes da consulta.


A avaliação neuropsicológica pode contribuir para investigar o funcionamento cognitivo e emocional quando indicada para a demanda. Sua necessidade e os procedimentos envolvidos devem ser discutidos com o profissional, dentro de uma investigação clínica mais ampla.


Quem quiser aprofundar o tema pode ler também a reportagem do Café Conteúdo sobre TDAH, autismo e autodiagnóstico nas redes sociais.


Avaliação neuropsicológica em Paulínia SP: como esclarecer suas dúvidas


Para quem busca avaliação neuropsicológica em Paulínia SP, o psicólogo Everson Taco atende adultos e adolescentes e investiga queixas relacionadas ao funcionamento cognitivo e emocional.

A identificação com um vídeo pode ser levada para essa conversa como uma pergunta a investigar, com abertura para compreender sua história e definir os próximos passos do cuidado.


Serviço:

Everson Taco Psicólogo | CRP 06/143304

Endereço: Av. Argentina, 133 - Jardim América, Paulínia - SP, 13140-705

Telefone: (19) 99757-6476

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